Vida Institucional Artificial

Por Porfírio Silva (ISR/IST)

Historicamente, o núcleo duro do projecto da inteligência Artificial clássica evidenciou três grandes esquecimentos: o esquecimento do corpo, o esquecimento do mundo, o esquecimento dos outros.

A Robótica Colectiva, relativamente recente, introduz elementos de superação destes esquecimentos: em vez da inteligência sem corpo, a inteligência em robots fisicamente realizados; em vez da inteligência servida por uma representação “mental” fixa e simplista do mundo (modelos traduzidos em software encerrado num computador pousado numa mesa), robots que têm de se desembaraçar em ambientes físicos em larga medida naturais; em vez da inteligência fechada na “cabeça” como sala de comando central no interior de um indivíduo isolado, a inteligência colocada no colectivo, como inteligência da interacção. A robótica colectiva posiciona-se, assim, como um dos domínios mais prometedores da nova vaga das ciências do artificial.

Contudo, a robótica colectiva continua, em larga medida, a trabalhar com simplificações grosseiras do que é o “social”. Se, para além dos resultados práticos imediatos (robots que realizem tarefas específicas em condições determinadas), estamos interessados em compreender o funcionamento de colectivos sofisticados, eventualmente incluindo relações muitos-para-muitos entre uma pluralidade de humanos e uma pluralidade de robots autónomos, temos de cuidar do tipo de inspiração que a robótica procura nas ciências da sociedade. Duas das armadilhas mais importantes que podemos encontrar na inspiração que a robótica colectiva procura em outras disciplinas científicas são: o biologismo (conceber as sociedades como entidades biológicas, fazendo dos insectos “sociais” uma espécie de paradigma de sociedade bem organizada) e a adesão pouco esclarecida à hipótese da ordem social espontânea. Procuraremos mostrar em que sentido dizemos que essas duas tendências constituem “armadilhas”.

Propomos, em linha com algum do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no ISR/IST, que podemos encontrar pistas novas para a compreensão do “social”, tanto humano como robótico, recorrendo a uma perspectiva institucionalista – uma perspectiva segundo a qual as instituições são o nível de realidade onde se joga o que é específico de sociedades sofisticadas com agentes sofisticados. Explicitaremos como isso se traduz na linha de investigação que designamos por “Robótica Institucionalista”. Serão mostrados exemplos do que está a ser feito no ISR/IST nessa linha.

Indicações Bibliográficas

Porfírio Silva e Pedro Lima, “Institutional Robotics”, in Fernando Almeida e Costa et al. (eds.), Advances in Artificial Life. Proceedings of the 9th European Conference, ECAL 2007, Berlim and Heidelbergh, Springer-Verlag, 2007, pp. 595-604 [Best Philosophy Paper Award - ECAL 2007 ]

Porfírio Silva, “Por uma robótica institucionalista: um olhar sobre as novas metáforas da inteligência artificial“, in Trajectos, 5 (Outono 2004), pp. 91-102

Porfírio Silva, Rodrigo Ventura e Pedro Lima, “Institutional Environments”, Sixth International Workshop From Agent Theory to Agent Implementation (AT2AI-6), Seventh International Conference on Autonomous Agents (AAMAS 2008)

porfiriosilva1Doutor Porfírio Silva proferindo a sua conferência.

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Seguem-se o vídeo desta conferência e os slides usados na ocasião. A reconstituição da conferência é possível combinando o uso destes dois recursos: mudar os slides manualmente à medida que a palestra avança.

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