A Escolha, Apesar da Dificuldade

Por Ana Costa (DINÂMIA, ISCTE)


Nos vários domínios da acção as escolhas são frequentemente difíceis, isto é, caracterizam-se pela existência de conflito entre múltiplas dimensões de valor consideradas incomensuráveis. A dificuldade experimentada pelo sujeito no processo de deliberação não é, no entanto, simplesmente consequência de limitações computacionais que afectam a capacidade de determinação dos trade offs entre as várias dimensões de valor; ela pode resultar também da aversão ou resistência à consideração de trade offs entre certos valores. A experiência subjectiva dos processos de deliberação pessoais, e a observação empática dos processos mentais e das acções dos outros, sugerem-nos que os indivíduos enfrentam frequentemente situações de dificuldade moral e que o fazem de uma forma racional. A mesma experiência e observação suscitam a ideia de que a deliberação não consiste numa mera escolha dos melhores meios para alcançar fins dados, envolvendo antes, em simultâneo com a consideração dos meios, a descoberta dos fins ou das razões para agir.


A noção de dificuldade da escolha parte da rejeição da ideia, subjacente à racionalidade económica neoclássica e aos modelos utilitaristas de decisão, de que a escolha em si mesma constitui evidência de que é sempre possível para o indivíduo proceder a uma redução não problemática das múltiplas dimensões de valor a uma medida única de valor, com base na qual comparações inequívocas entre alternativas seriam estabelecidas. Poder-se-á, assim, considerar que a dificuldade da escolha reside simplesmente no facto da acção humana ser afectada por tendências diversas e contraditórias, sendo em última análise determinada por um exercício criativo da inteligência. Em alternativa à racionalidade económica neoclássica, procura-se articular uma perspectiva da escolha que não dependa do pressuposto da comensurabilidade de valor e que seja, assim, capaz de reconhecer os dilemas morais frequentemente envolvidos na deliberação.


Esta perspectiva da escolha, desenhada a partir de contributos vários, que se estendem da filosofia e psicologia pragmatistas à filosofia moral contemporânea e à abordagem institucionalista, é conducente a uma noção de deliberação e de racionalidade que envolve não só os meios, como os fins da acção. A racionalidade é vista como um processo de justificação da escolha, isto é, de selecção das razões suficientes para agir. Estes vários contributos, convocados na compreensão dos processos de deliberação e de escolha, servem de inspiração à formulação de conjecturas acerca de procedimentos ou heurísticas de redução da dificuldade da escolha. Na esteira destes contributos, os processos de deliberação individual não estão contidos ao nível do próprio indivíduo, separados do contexto em que a acção tem lugar e dos outros indivíduos; eles são processos sociais, que se articulam com deliberações a um nível colectivo.


Indicações Bibliográficas

Costa, Ana (2007), A Dificuldade da Escolha. Acção e Mudança Institucional. Dissertação de Doutoramento, Lisboa: ISCTE.

Costa, Ana Narciso e José Castro Caldas, “Claiming Choice for Institutional Economics”, comunicação na VI Conferência Anual INEM – The International Network for Economic Method, de 11 a 13 de Setembro de 2008, em Madrid, submetido ao Journal of Economic Methodology.

Caldas, José Castro, Cícero Pereira e Ana Narciso Costa (a publicar brevemente), “Economia e Moralidade” em L.Sousa (Org.), Ética, Estado e Economia - Atitudes e práticas dos europeus, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

anacostaProfessora Ana Costa proferindo a sua conferência.

***

Seguem-se o vídeo desta conferência e os slides usados na ocasião. A reconstituição da conferência é possível combinando o uso destes dois recursos: mudar os slides manualmente à medida que a palestra avança.

[Regressar à página da Sessão 3]